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domingo, 26 de junho de 2011

A revolução será musicada

Professor do Curso de Música da Uece, Heriberto Porto avalia o atual cenário da formação de jovens músicos no Ceará

Como professor do Curso de Música da Universidade Estadual do Ceará, hoje convivo com uma nova geração de entusiasmados instrumentistas do Ceará. Estes jovens provêm de diversas cidades do Estado, de classes sociais variadas, fazendo do ambiente de estudo a verdadeira universidade. Todos anseiam a uma profissionalização na música e se preparam para ser os futuros professores na ansiada nova sociedade onde o ensino da música será bem mais universalizado. A nova Lei nº 11.769, que dispõe sobre a obrigatoriedade do ensino da música na educação básica, sancionada em 18 de agosto de 2008 pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, têm aumentado o interesse pelas graduações em música, mesmo que a lei não defina ainda o perfil do profissional que irá lecionar nos ensinos fundamental e médio, nem determine em quantos anos o ensino de música será ministrado – caberá aos conselhos educacionais, estaduais e municipais, regulamentarem-na.

Hoje os estudantes de música no estado do Ceará chegam aos cursos superiores com uma formação básica muitas vezes deficiente, boa parte autodidata. O que se vê é muito talento e vontade de fazer boa música. Isso tem um lado bom: o aluno não chega com vícios éticos e musicais. Chegam ávidos de conhecimento e com a certeza de que todos querem ser músicos. Já é muito para o perfil dos docentes de um curso universitário.

A formação da maioria desses jovens se faz por meio de projetos sócio-educativos, cursos em escolas particulares, nos importantes festivais “de férias” como o Festival Eleazar de Carvalho e o Festival de Música na Ibiapaba, em Viçosa do Ceará. Poucos podem ter uma formação básica formalizada, continuada e consistente por falta de escolas públicas de ensino musical. As exceções são o curso técnico do Instituto Federal do Ceará (IFCE), antigo Cefet, e a Escola de Música de Sobral. Os organismos como o Centro Dragão do Mar e o Cuca Che Guevara fazem seu papel de oferecer cursos, mas não são ainda a escola tão sonhada por todos os profissionais do ensino da música.

O Ceará necessita há muito tempo de maiores investimentos na educação musical. A própria Uece tem um déficit de pelo menos 15 professores para o curso de Música, pois várias áreas como a didática, a pesquisa, a composição e os instrumentos específicos estão “descobertas”, faltando professores. Não temos professores em cordas, temos somente três bacharelados em instrumento: piano, flauta e saxofone, além do bacharelado em composição e da licenciatura em música.

Somos carentes em Mestres no violino, violoncelo, clarineta, trompete, trombone, flauta doce, dentre os mais procurados, pois a demanda pelos bacharelados já é muito grande e o nível dos jovens músicos nestas áreas já justifica a criação de novos cursos. Se para alguns são instrumentos anacrônicos, do tempo antigo, quem toca sabe do valor universal e tem todo o direito de uma boa formação específica na área. A categoria espera com ansiedade o prometido concurso público na Uece.

Se o nosso estado quer se desenvolver realmente (é o que aparenta com os recentes investimentos em infra-estrutura, em criação de empregos e implantação de novas indústrias), ele deve continuar investindo na formação em artes e em especial na música.

Já tivemos grandes melhorias nos últimos anos com a criação de novos cursos pela Universidade Federal do Ceará, com o surgimento de grupos profissionais, como a Orquestra de Câmara Eleazar de Carvalho, o belo projeto de música de Pindoretama, com os mencionados festivais, sem esquecer as veteranas instituições que são a Orquestra do Sesi e a Banda do Piamarta. Lamentamos o desaparecimento da Escola do Ancuri, da Escola Eleazar de Carvalho de Iguatu e do Festival de Música de Câmara do Vale do Salgado (em Iguatu e Icó). Isso prova que “projetos” podem deixar de ter suas subvenções, de repente não conseguem mais captar recursos ou ganhar editais. Uma escola pública de música, como as que existem em muitos estados como no Pará, no Rio Grande do Norte ou na Paraíba, seria a oportunidade de estudo acessível, de inserção social para centenas de jovens, além de ser a base de uma possível Orquestra Sinfônica Estadual. Recentemente pude conhecer inúmeras escolas profissionalizantes que felizmente surgiram no interior do estado e na capital. Estes equipamentos poderiam também servir como sede de cursos de música. Alunos não faltariam.

A cada nova gestão que se inicia, ficamos na expectativa de uma grande revolução pelas artes e pela cultura ou de gestores que enxerguem que a revolução pacífica e verdadeiramente socialista já começou nas mentes e corações dos nossos músicos e artistas. Só lhes falta mais suporte para um grande salto humanista e profissionalizante.

A arte transforma rapidamente as realidades de nossos jovens carentes, está provado, todos sabemos. Cada real investido em cultura são cem economizados em segurança.

Heriberto Porto, flautista, membro do Syntagma e da Marimbanda, professor-mestre da Uece. 

Heriberto Porto ESPECIAL PARA O POVO

Fonte: O POVO